08 Mai

Sinait lança, no Senado, exposição fotográfica sobre trabalho escravo e infantil

Publicada em: 08/05/2018

Mostra “Sobre o peso das correntes nos teus ombros” foi aberta, oficialmente, na manhã desta terça-feira, 8 de maio, no Espaço Cultural Ivandro Cunha Lima, do Senado

Por Lourdes Marinho

Edição: Nilza Murari

O Sinait abriu, oficialmente, a exposição fotográfica “Sobre o peso das correntes nos teus ombros” nesta terça-feira, 8 de maio, no Espaço Cultural Ivandro Cunha Lima, do Senado. Desde a segunda-feira, 7, a mostra com fotografias do Auditor-Fiscal do Trabalho Sérgio Carvalho está aberta para visitação. São fotos de trabalhadores resgatados do trabalho escravo e de crianças em situação de trabalho irregular.

Brasília é a segunda capital a receber a exposição com este nome, mas com imagens e formato diferentes. A primeira mostra foi exibida em Fortaleza (CE), cidade onde Sérgio Carvalho reside. No Senado, as fotos são expostas em uma estrutura de madeira que imita os barracões onde são encontrados os trabalhadores escravizados.

“Geralmente eles cobrem esses barracões com plástico, ficando vulneráveis às intempéries da natureza”, explica o fotógrafo. Ele observa que em cada cidade a mesma exposição será montada em um cenário diferente. 

“Trouxemos para a Casa do parlamentar brasileiro a casa do trabalhador. Queremos mostrar como eles dormem, bebem e comem. É importante colocar isso para os parlamentares que fazem a política brasileira”, disse Sérgio Carvalho. Para ele, a situação como são encontrados os trabalhadores é o que mais choca os Auditores-Fiscais quando se deparam com o trabalho escravo.

O interior da exposição remete aos dormitórios dos trabalhadores. Por isso, no local estão expostas as fotos de diferentes alojamentos, com colchonetes, redes, pedaços de espumas e cobertores em cima de restos de madeira que servem de cama para os trabalhadores.

Nas imagens sobre trabalho infantil, o fotógrafo capturou cenas de crianças tapando buracos em estradas do Piauí e Ceará; em abatedouros do Piauí; em pedreiras, quebrando pedras para fazer britas, no Ceará; e em carvoarias do Piauí, fabricando carvão vegetal para as siderúrgicas de Minas Gerais.

O presidente do Sinait, Carlos Silva, disse que ao levar a mostra para o Senado, a entidade chama a atenção para outras formas de exploração dos trabalhadores. Entre elas, as legitimadas pelo Congresso Nacional, como a reforma trabalhista e o teto de gastos, que também penalizam os trabalhadores.

“Essas iniciativas, combinadas com o ataque às instituições que defendem os trabalhadores, precisam ser enfrentadas e combatidas por todos, especialmente pelos Auditores-Fiscais do Trabalho, para que os trabalhadores não sejam explorados. São medidas que prejudicam a população – em especial trabalhadores e a parcela mais vulnerável que depende de políticas públicas”, ponderou.

“Esperamos sensibilizar os parlamentares com essa mostra. Mostra que traz tudo aquilo que acontece de verdade com os trabalhadores e que nós todos temos o dever de lutar para acabar de vez com essa chaga social”, disse a vice-presidente do Sinait, Rosa Maria Campos Jorge.

Visão social

O senador Paulo Paim (PT/RS) e a deputada Cristiane Brasil (PTB/RJ) estiveram na cerimônia de lançamento. Ambos reconheceram a importância do trabalho dos Auditores-Fiscais na promoção de uma sociedade mais justa. 

“O trabalho dos Auditores-Fiscais é muito bonito, pelo lado humano que representa”, exaltou Paim. Ele lembrou que quando foi escolhido para ser o relator do projeto de lei que regulamenta a Emenda Constitucional 81, mais conhecida como PEC do Trabalho Escravo - que prevê a expropriação de imóveis rurais ou urbanos em que for constatado trabalho escravo, disse que sua intenção era que seu relatório tivesse somente um artigo: “O trabalho escravo está proibido no Brasil”.

A deputada Cristiane Brasil se surpreendeu com os dormitórios dos trabalhadores e com as cenas de crianças trabalhando nas pedreiras. “Todos têm que passar por esta exposição. Os Auditores-Fiscais podem contar comigo para esse trabalho, incondicionalmente”, disse a deputada.    

Um grupo de cinco amigas de São Paulo que visitava o Congresso Nacional parou para ver a exposição. “Achamos a exposição linda e ao mesmo tempo triste. O colorido das fotos contrasta com a realidade desses trabalhadores e crianças. Espero que os deputados olhem para essas fotos e cuidem mais do povo brasileiro”, disse uma delas, a arquiteta Anete Prado.

Cordel

Durante a cerimônia de lançamento da mostra, a diretora do Sinait, Vera Jatobá, entregou ao senador Paim um exemplar do cordel “Na contemporaneidade resgatar da escravidão”, do cordelista pernambucano Allan Sales. O livreto será lançado em audiência pública na Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa – CDH do Senado no dia 15, sobre os 130 anos de Abolição da Escravidão no Brasil. “O cordel conta a saga do trabalho escravo na contemporaneidade”, informou.

Resgates

Desde que foram criados, em 1995, os Grupos Especiais de Fiscalização Móvel, coordenados por Auditores-Fiscais do Trabalho, resgataram mais de 52 mil trabalhadores. Até 2013, o trabalho escravo foi registrado principalmente em atividades rurais – pecuária, produção de carvão, plantação de cana-de-açúcar e outras culturas. Nos últimos cinco anos o crime também passou a ser frequente em áreas urbanas, principalmente nos setores têxtil e da construção civil.

O Espaço Cultural Ivandro Cunha Lima está localizado próximo aos caixas eletrônicos do corredor de acesso ao Anexo I do Senado. A exposição seguirá o mesmo horário de funcionamento do Senado e ficará aberta para visitação até o dia 18 de maio.

Participaram ainda do lançamento da mostra fotográfica os diretores do Sinait  Ana Palmira Arruda Camargo, José Antônio Fontoura, Alex Myller e Hugo Carvalho.