24 Nov

38º ENAFIT – Mesa especial discute a Chacina de Unaí e apresenta livro que conta a história do crime

Publicada em: 24/11/2022

A Chacina de Unaí foi tema de uma mesa especial nesta quinta-feira, 24/11, dentro da programação do 38º Enafit. A impunidade que marca a tragédia foi relatada pelos participantes. O momento foi de muita emoção, tanto dos participantes da mesa, como de Auditores-Fiscais do Trabalho presentes, que lembraram os colegas assassinados. Aílton, Eratóstenes, João Batista e Nelson continuam na memória de todos e isso ficou claro durante o evento.

O presidente do SINAIT Bob Machado falou sobre a luta do Sindicato, travada desde 2004, para que os culpados sejam presos. “Durante todo o ano de 2022 o SINAIT lembrou os 18 anos da Chacina de Unaí. O crime que chocou a todos nós é sempre lembrado, mas 18 anos foi uma marca pela simbologia do número, que nos lembra o início da vida adulta. Daí concluímos que 18 anos representam uma vida de impunidade”.

O presidente lembrou que os quatro servidores assassinados em 28 de janeiro de 2004 estavam trabalhando. Era o período da safra de feijão e o trabalho era grande, já que eram muitas fazendas. Por esta razão Nelson, que era o Auditor-Fiscal do Trabalho que atuava na região, solicitou ajuda de outros colegas, que saíram da Delegacia Regional do Trabalho (hoje SRT) de Belo Horizonte com destino a Paracatu.

“Nelson já tinha sido ameaçado pelos seus algozes no ano anterior. Ele estava junto com dois colegas, também lotados em Belo Horizonte, que se viram encurralados em uma sala com o fazendeiro Norberto Mânica, enquanto este impedia a saída com um chucho (objeto pontiagudo usado para abrir os sacos de feijão) na mão. É um crime que nos entristece de lembrar com detalhes. Ao mesmo tempo, lembrar dos detalhes nos faz entender cada vez mais que ele não pode ser esquecido”.  

Bob Machado agradeceu os membros do Ministério Público em Minas Gerais; as viúvas, Marlene, Marinez, Genir e Helba; as representações do SINAIT nos estados, via associações e Delegacias Sindicais; os Auditores-Fiscais do Trabalho de todo o Brasil, citando que cada um deles é uma vítima da tragédia, que atingiu a categoria. O apoio de entidades da sociedade civil, que sempre participaram da luta por justiça, também foi citado pelo presidente.

“Hoje, dia 24 de novembro de 2022, a Chacina de Unaí completa 6870 dias. Em 65 dias a tragédia completa 19 anos. É tempo demais para quem espera uma resposta. Ano após ano, o dia 28 de janeiro é dia de manifestação, dia de protestar contra a impunidade, dia de cobrar das autoridades e é dia de contar de novo para todo mundo que foi o maior crime que já houve contra o Estado brasileiro”.

A diretora do SINAIT Rosa Jorge falou, muito emocionada, sobre os anos de espera por justiça e disse que o Sindicato não vai deixar que o crime caia no esquecimento. Para ela são mais de 18 anos de muita dor, muito sofrimento, muita luta. Às vezes, um sentimento de impotência, mas também de muita superação. “Nós conseguimos muitas vitórias, porque realmente são pessoas muito poderosas economicamente, politicamente e neste país, os poderosos raramente vão para a cadeia, mas nós temos esperança, principalmente porque nós não desistimos. E eu vou poder sorrir, pelo menos um pouco, quando os mandantes e intermediários, enfim forem presos”.

As viúvas de Eratóstenes, João Batista e Nelson, respetivamente, Marinez Lina, Genir Lage e Helba Silva falaram da dor de perder seus maridos, do sentimento de impunidade e agradeceram ao SINAIT, pelo apoio prestado às famílias nestes quase vinte anos. Genir lembrou a sua dificuldade em falar do assunto e disse que sua família. Helba, que ainda mora em Unaí, reforçou o poderio da família Mânica. De acordo com ela, todos eles são muito respeitados na cidade, e também temidos, em função de serem empregadores de boa parte da população. Marinez fez referência aos últimos momentos com Eratóstenes, dois dias antes do crime, quando ele saiu de Belo Horizonte com destino a Paracatu, sede da Subdelegacia Regional do Trabalho na ocasião. Apesar de toda a dor, Marinez disse que seu marido tem uma história honrada e que ele será lembrado pela pessoa boa que foi.

Ao final, ela abraçou Rosa Jorge, em agradecimento a todos os Auditores-Fiscais do Trabalho presentes. Nesses quase dezenove anos de espera a diretora se envolveu com as famílias e criou com as viúvas uma relação de amizade e respeito.

O vice-presidente do Sindicato Carlos Silva agradeceu às viúvas e à procuradora do Ministério Público, Míriam Lima, que atua desde o início no processo. Ele se referiu ao crime que chocou o país como uma ferida aberta na Auditoria-Fiscal do Trabalho e mais uma vez, lembrou as ações feitas ao longo dos anos para assegurar que a justiça aconteça.  

Na sequência, Míriam Lima discorreu sobre o processo, que não está em segredo de justiça. A procuradora fez relatos importantes para os Auditores-Fiscais do Trabalho como a rapidez com que as investigações foram concluídas, ainda em 2004, e as dificuldades para manter o julgamento em Unaí. Ela falou também da quantidade de provas que foram juntadas aos autos e que não deixam dúvidas sobre a autoria do crime.

Segundo Míriam Lima, todos os culpados, já condenados, confessaram o crime, com exceção de Antério Mânica. Condenado a 100 anos de prisão em 2015, o empresário e político, teve seu julgamento anulado em 2018. Em maio de 2022, voltou ao banco dos réus e sofreu nova condenação, desta vez de 64 anos. “Existem várias provas que apontam Antério Mânica como mandante do crime”.

Exemplos disso são duas ligações que o fazendeiro fez para a Subsdelegacia Regional do Trabalho em Paracatu, no dia 28 de janeiro de 2004: a primeira questionando se todos os fiscais haviam morrido e a segunda, confirmando a informação. O detalhe é que naquele momento, ninguém sabia das execuções. Outro fato que liga Antério Mânica diretamente ao crime é a confissão de um dos pistoleiros, que afirmou que um homem bravo deu a ordem para torar tudo (matar todos) de dentro de um veículo Marea azul, na noite anterior à tragédia. Documento do Detran juntado aos autos apontou que o único veículo com tais características que existia em Unaí na ocasião pertencia à esposa de Antério Mânica.

Míriam Lima falou de uma certa frustração pelo fato de os mandantes e intermediários ainda não terem sido presos, ao mesmo tempo lembrou que isso pode ocorrer a qualquer momento. “Hoje temos a lei anticrime que garante a prisão de executores de homicídio condenados pelo Tribunal do Júri há mais de quinze anos de prisão. Nesta hipótese, há possibilidade de condenação certa”. No caso da Chacina de Unaí, um Recurso de Repercussão Geral aguarda análise e a expectativa é que o resultado saia em breve.

A mesa especial foi coordenada pela diretora do Sindicato Rosângela Rassy. Ela citou o papel do SINAIT, que por meio de suas mobilizações, visitas e cobranças nos tribunais, permitiu que o processo avançasse, chegando às condenações dos criminosos.

Livro narra a história do crime e o trabalho do SINAIT ao longo de quase duas décadas 

No encerramento das apresentações o SINAIT lançou o livro CHACINA DE UNAÍ – a luta do SINAIT por justiça, escrito pela jornalista mineira Cláudia Machado, a convite do SINAIT. A obra narra a história a partir do dia 26 de janeiro de 2004, dois dias antes do crime, quando Aílton, Eratóstenes e João Batista, saíram de Unaí com destino a Paracatu para se encontrar com Nelson. Eles iriam fazer ações de fiscalização na região no período da safra de feijão.

Além de falar sobre a tragédia, as investigações e os julgamentos, a história conta sobre as mobilizações e a atuação incansável do SINAIT para que a justiça seja feita e o crime não caia no esquecimento. Cláudia Machado falou do seu envolvimento com a Auditoria-Fiscal do Trabalho. “A Chacina de Unaí faz parte da minha vida desde o dia 29 de janeiro de 2004. Na época eu era assessora de Comunicação do Crea Minas e fui chamada em casa para chegar mais cedo ao trabalho, porque o velório dos servidores assassinados aconteceria nas dependências do Conselho. Coincidência ou não, três anos depois, em 2007, fui convidada pela nossa querida e saudosa Nilza Murari para integrar a equipe de Comunicação do 25º Enafit, que ocorreu em Belo Horizonte. Desde então, tenho sido uma colaboradora rotineira do SINAIT em diversos trabalhos, especialmente os Enafits. Confesso que até então, o meu conhecimento sobre o papel da Auditoria-Fiscal do Trabalho era muito superficial. A dor de vocês também é minha”, disse.