24 Jan

Inspeção do Trabalho resgatou 2.575 trabalhadores de situação análoga à escravidão em 2022

Publicada em: 24/01/2023

Foram 462 ações que resultaram em mais de R$ 8 milhões em direitos trabalhistas pagos aos resgatados no meio urbano e rural

Com informações do Ministério do Trabalho e Emprego.

A Inspeção do Trabalho resgatou 2.575 trabalhadores de condições análogas à escravidão em 2022, em um total de 462 fiscalizações realizadas no ano em todo o país, resultando em mais de R$ 8 milhões em direitos trabalhistas. Com ações ainda em andamento ocorridas em 2022, esse quantitativo de 2.575 trabalhadores pode vir a ser retificado ao longo de 2023.

O Grupo Especial de Fiscalização Móvel (GEFM) realizou 32% do total das ações fiscais, encontrando trabalho análogo ao de escravo em 17 dos 20 estados onde ocorreram as operações. Apenas nos estados de Alagoas, Amazonas e Amapá, mesmo fiscalizados, não foram constatados casos de escravidão contemporânea em 2022.

Os dados foram divulgados pela Secretaria de Inspeção do Trabalho do Ministério do Trabalho e Emprego (SIT/MTE), na semana alusiva a 28 de janeiro, Dia Nacional de Combate ao Trabalho Escravo, instituído em homenagem aos Auditores-Fiscais do Trabalho Eratóstenes de Almeida Gonsalves, João Batista Soares Lage e Nelson José da Silva e ao motorista Aílton Pereira de Oliveira, mortos em ação no ano de 2004, no episódio que ficou conhecido como Chacina de Unaí. Na época, Nelson José era lotado na Gerência Regional do Trabalho de Paracatu (MG) e os outros três servidores na Superintendência Regional do Trabalho de Minas, em Belo Horizonte.

Minas Gerais foi o estado com mais ações fiscais, 117 ocorridas no ano, tendo 1.070 trabalhadores resgatados. Em seguida vêm Goiás, com 49 fiscalizações, com 271 trabalhadores encontrados, e Bahia, com 32 ações e 82 trabalhadores encontrados. O maior resgate de trabalhadores ocorreu no município mineiro Varjão de Minas, onde 273 trabalhadores foram resgatados de condições degradantes de trabalho na atividade de corte de cana-de-açúcar.

As indenizações alcançaram no ano um total de R$ 8.187.090,13, a título de verbas salariais e rescisórias em razão da rescisão imediata dos contratos de trabalho. O vínculo de emprego com a formalização de contratos de trabalho alcançou 1.122 trabalhadores, sendo ainda recolhidos mais de R$ 2,8 milhões a título de Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS).

De acordo com o chefe da Divisão de Fiscalização para Erradicação do Trabalho Escravo (Detrae), o Auditor-Fiscal do Trabalho Maurício Krepsky, “o resgate tem por finalidade fazer cessar a violação de direitos, reparar os danos causados no âmbito da relação de trabalho e promover o devido encaminhamento das vítimas para serem acolhidas pela assistência social”.

Perfil social dos resgatados

Em relação ao perfil social das pessoas resgatadas, dados do seguro-desemprego pagos ao trabalhador resgatado mostram que 92% eram homens, sendo que 29% deles tinham entre 30 e 39 anos. Pouco mais de 50% residiam na Região Nordeste e outros 58% eram naturais dessa região. Cerca de 80% deles se autodeclararam negros ou pardos, 15% brancos e 2%, indígenas.

Quanto ao grau de instrução, 23% deles declararam ter estudado até o 5º ano incompleto, 20% que haviam cursado do 6º ao 9º ano incompletos, e 7% dos trabalhadores resgatados se declararam analfabetos.

Outro dado importante mostrado pelo relatório é que 148 resgatados eram migrantes de outros países, o dobro em relação a 2021. Foram encontrados pelas equipes 101 paraguaios, 25 bolivianos, 14 venezuelanos, 4 haitianos e 4 argentinos.

Maurício Krepsky destacou que a Lei de Migração prevê a autorização de residência de vítima de tráfico de pessoas, de trabalho escravo ou de violação de direito agravada por sua condição migratória. “Nesses casos, o requerimento é encaminhado ao Ministério da Justiça e Segurança Pública pela Inspeção do Trabalho, garantindo assim a permanência do migrante no país, caso assim seja sua vontade”, explicou.

Atividades econômicas

Entre as atividades econômicas, 362 pessoas foram resgatadas no cultivo de cana-de-açúcar; 273 em atividades de apoio à agricultura; 212 na produção de carvão vegetal; 171 no cultivo de alho; 168 no cultivo de café; 126 no cultivo de maçã; 115 em extração e britamento de pedras; 110 na criação de bovinos; 108 no cultivo de soja; 102 extração de madeira, e 68 na construção civil.

Do total de ações, 73% delas ocorreram na área rural, setor que também responde por 87% dos resgates, percentual muito próximo aos de 2019 e 2020. No meio urbano (27% das ações), foram resgatados 210 trabalhadores nas atividades da construção civil (68 resgates), setor de serviços, especificamente em restaurantes (63 resgates), e confecção de roupas (39 resgates).

Trabalho doméstico

No trabalho escravo doméstico, foram encontradas pela fiscalização 30 pessoas, em 15 unidades da federação, com maior foco na Bahia (10 casos). Paraíba, Minas Gerais, São Paulo e Pernambuco tiveram 3 casos em cada estado. “Em razão da grande repercussão do resgate da trabalhadora doméstica Madalena Gordiano, no final de 2020, em Patos de Minas (MG), o número de denúncias aumentou em todo o país, o que levou a Inspeção do Trabalho a aumentar a fiscalização nesse setor com o objetivo de verificar possível situação de escravidão contemporânea em ambientes domésticos rurais e urbanos, sendo que essa situação foi encontrada em 29 ações dentre as 43 realizadas em 2022”, explicou Maurício Krepsky, chefe da Detrae.

Trabalho escravo infantil

O relatório demonstrou ainda que 35 crianças e adolescentes foram encontrados pela fiscalização, submetidos a trabalho análogo ao de escravo. Do total de resgatados, dez eram menores de 16 anos e 25 possuíam de 16 a 18 anos no momento do resgate.

O cultivo de café foi a atividade em que mais crianças e adolescentes foram resgatados (24%). Foram encontrados ainda crianças e adolescentes em atividades esportivas, produção florestal, atividades de apoio à agricultura, cultivo de arroz, cultivo de coco-da-baía, criação de bovinos, fabricação de produtos de madeira, produção de carvão vegetal, cultivo de soja e confecção de roupas.

Denúncias

As denúncias de trabalho análogo ao de escravo são recebidas pelo Ministério do Trabalho e Emprego pelo Sistema Ipê, de forma remota e sigilosa, lançado em 2020 em parceria com a Organização Internacional do Trabalho (OIT) – acesse em: https://ipe.sit.trabalho.gov.br/. Foram 1.654 denúncias, um aumento de 66% em relação ao ano anterior, que são repassadas à Divisão de Fiscalização para Erradicação do Trabalho Escravo, que faz o levantamento de inteligência fiscal e de informações complementares para serem inseridas no planejamento de operações do Grupo Móvel.

Esse resultado se deve à atuação da Auditoria-Fiscal do Trabalho, que coordena as ações de combate ao trabalho análogo ao de escravo, seja por intermédio do Grupo Especial de Fiscalização Móvel, que atua em todo território nacional, seja pelas equipes de fiscalização mantidas no âmbito das Unidades Regionais, bem como às parcerias que foram formadas ao longo dos anos.

Também participam das operações do GEFM a Polícia Federal (PF), a Polícia Rodoviária Federal (PRF), o Ministério Público do Trabalho (MPT), o Ministério Público Federal (MPF) e a Defensoria Pública da União (DPU).

Os dados oficiais das ações de combate ao trabalho análogo ao de escravo no Brasil estão disponíveis no Radar do Trabalho Escravo da SIT, no seguinte endereço: https://sit.trabalho.gov.br/radar/